Harry Potter meu herói

Presente bom de se dar aos filhos é o prazer de ler. Não consigo pensar em melhor. E para surpresa de muita gente e a despeito das desculpas que fingem justificar a aversão a leitura - "essa meninada de hoje não quer saber de nada com os livros" - há um bocado de gente miúda interessada em ler.

Tenho um espécime desses e vez em quando tropeço em algum outro que aparece em casa. São criaturas absolutamente normais, vou logo esclarecendo, para que não pairem dúvidas injustas sobre a sanidade dos moços. Loucos não são. Só um tanto obcecados por um tal de Potter. Harry Potter.

Mesmo quem não tem filhos já ouviu falar do extraordinário sucesso editorial que as aventuras deste personagem promovem em todo mundo. Em junho de 2007 foi lançado no Brasil o sétimo livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte, com deliciosas 590 páginas. Não sei qual foi a última vez que você reuniu coragem para encarar um calhamaço destes, mas a meninada - aquela que não quer saber de nada com leitura - jogou o livro para o primeiro lugar entre os mais vendidos. E logo na primeira semana. Li todos os sete e, quer saber de uma coisa, acho que você devia fazer o mesmo.

Lendo o que seus filhos gostam de ler você vai conseguir se aproximar como nunca do ponto de vista deles. Entender que tipo de interesses eles buscam. Do que é que gostam. Baixando a guarda e aprendendo a ouvir os filhos ganhamos todos. Eles por se sentirem aceitos e compreendidos. Nós por nos sentirmos menos estranhos ao universo deles. Além disso, e esse é o pulo do gato, da mesma maneira como você fez um movimento para aproximar-se do modo como eles vêem o mundo, eles saberão retribuir respeitando seus pontos de vista.

Vamos, por exemplo, que você ande preocupado com a onda consumista em sua casa. Que as crianças tenham perdido de vez as medidas e que tudo o que você houve é "quero isso, aquilo e mais aquilo outro. E o azul, também!". Claro, você até pode achar que vai resolver o problema explicando que "dinheiro não é capim; que não nasce em árvore; que vocês precisam dar valor as coisas" e o resto daquela lengalenga que todo filho sabe de cor. É uma escolha. Cansativa, é verdade, mas é uma escolha.

Entretanto, se estiver interessado em alternativas a este suplício, vá por mim. Comece agora seu primeiro Potter (Harry Potter e a Pedra Filosofal). Logo de início você vai esbarrar no Duda - um personagem pré-adolescente, absoluto em seu ridículo. Consumista, mimado, birrento e muito chato, não há criança que queira se parecer com ele. Inclusive seus filhos. Assim, dá próxima vez que a prole atacar de "eu quero e pronto" fulmine com um "ora, mas isso até parece coisa do Dudinha". É o que bastará para a rendição, incondicional, da tropa.

Vejamos outro exemplo. Você há de concordar que falar sobre ética e dinheiro pode ser espinhoso para a maioria de nós. A tentação de fazer discursos arrastados, recheados de exemplos morais é quase invencível. O pior de tudo é que quando a gente, já adulto, olha para trás, descobre que os melhores conselhos - as grandes orientações éticas - não vieram nunca de conversas tão sérias. Vieram, isso sim, dos papos que rondavam os minutos de depois do almoço ou de outros tantos em que nossos pais, distraídos de seu compromisso de educar, nem notaram que mostraram a gente, naquele minutinho, o rumo do certo a seguir na vida.

É deste modo também que a vida acontece aos nossos filhos. E uma maneira de criar ambiente para falar sobre a relação entre finanças e valores éticos - que, afinal, é o que há de mais importante a se ensinar aos filhos sobre dinheiro - é, mais uma vez, fazendo troça do tal Dudinha. Esse personagem, não bastasse a chatice toda, ainda é o avesso completo de toda ética, como se pode ver sobretudo em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

Em cada um dos outros livros da série você vai poder fisgar assuntos a serem aproveitados na educação de seus filhos (como reagir a prepotência; dinheiro não é tudo na vida; amizade e dinheiro, entre outros). De todo modo, o fundamental é que quando a gente se dispõe a se aproximar dos filhos - sem ficar de longe, ditando ressabiado as regras - o processo de educar, inclusive para lidar com dinheiro, é sempre mais fácil.