As armadilhas da publicidade

De uns anos para cá, apercebendo-se da mudança de direção na via do conhecimento tecnológico, a publicidade deu de abusar do estereótipo de criancinhas geniais comandando pais completamente idiotizados. Há uma infinidade de campanhas que apresentam a criança como sumidade da família, insinuando que, sendo tão mais “inteligente” que os pais, é a ela que deve caber decidir os rumos do consumo familiar.

É fato que nos maiores centros urbanos, sobretudo naquelas famílias em que pai e mãe trabalham fora, o convívio com os filhos acontece de modo mais demorado apenas nos finais de semana. Essa situação muitas vezes concentra o convívio familiar em atividades associadas ao consumo - idas ao shopping; refeições em restaurantes, são exemplos-, e cria condições para que as crias muito precocemente sejam chamadas a palpitar sobre uma série de consumos.

Não há dúvida que convidar os filhos a acompanharem o processo de decisão envolvido na aquisição de um veículo, por exemplo, pode ser muito educativo. Além de reafirmar os laços familiares- a compra de um novo carro quase sempre é fruto de conquista longamente planejada – serve para ensinar aos filhotes um bocado sobre finanças. Quais serão as condições de pagamento? Quais as vantagens e desvantagens de cada modelo analisado? Quais serão as implicações financeiras posteriores à aquisição (juros de financiamento; custo do seguro; manutenção; IPVA)? Qual a margem de depreciação numa eventual revenda?

São ponderações importantes que, traduzidas para as possibilidades de compreensão dos filhos, devem ser percebidas como etapas de um processo racional de tomada de decisão. Mas, atenção, isso é completamente diferente de empurrar para os filhos a responsabilidade pela escolha do carro.

Há pais que confundem a construção da autonomia dos filhos com o abandono de suas responsabilidades de adultos. Ou, tão grave quanto, com a presunção de que a criança é tão adulta quanto eles. Ou, ainda pior, que a criança - como insinuam as propagandas na TV- é mais adulta do que eles.

Este é um assunto tão delicado que merece mais tempo. Voltarei a ele no próximo post.