O modelo dos pais

Vivemos dias de corrida insana. Para empatar receita e despesas exageramos o número de horas trabalhadas. Quando damos pela coisa, nossos filhos amadureceram longe dos nossos olhos.

Para complicar a situação, nas famílias residentes em centros urbanos, sobretudo naquelas em que pai e mãe trabalham fora, as reuniões familiares acontecem quase que exclusivamente nos fim de semana. Frequentemente esses encontros se dão em situações que de alguma maneira invocam o consumo. São exemplos as compras no shopping, o almoço no restaurante, o DVD escolhido na locadora. Essa exposição ao consumo tende a levar a criança, desde muito nova, a pedir que lhe comprem isso e aquilo. E, o pior, pouco a pouco transforma em siameses os prazeres da diversão e do consumo.

Isso ajuda a compreender porque tantas crianças para relaxar, “precisam” comprar alguma coisa. Há alguns anos assisti a um garoto de oito anos, alegando tensão depois de um dia difícil na escola, pedir à mãe que o levasse ao shopping para que pudesse descansar. Cheia de dedos perguntei à mãe se não seria melhor para o filho se o levasse a dar uma volta num parque. Ela ficou de considerar a ideia -- numa próxima vez. Como é que se troca um passeio com os filhos pequenos a um parque por idas ao shopping é coisa que nunca vou entender.

Correr, pular, pedalar, exaurir-se pelo prazer do cansaço: é do que criança precisa. A falta disso entristece, adoece, tira da vida, tão cedo, toda a graça. Nossas ações e reações são a todo tempo imitadas por nossos filhos. Eles nos veem não como somos, realmente, mas como modelos idealizados de comportamento e saber. Sendo tão especiais tudo o que os pais fazem é registrado como “o jeito certo de fazer”. E aí é que as coisas se enrolam de vez. Se os pais preferem zanzar pelo shopping ao invés de tecer com tempo e calma a trama da intimidade com os filhos, não há razão para supor que eles venham a crescer sem idolatrar, acima de tudo- inclusive do amor dos pais- o consumo.