Da arte de aprender com os tombos

Um dos benefícios da mesada, quando bem dada e dosada, é propiciar que, vez ou outra, os filhos experimentem o susto e a angústia de falir. Tendo aprendido as consequências das escolhas equivocadas que cometeram com tão pouco dinheiro, os filhos, ainda que aos trancos, serão ensinados a evitar, no futuro, tropeços maiores, mais graves, com muito mais grana.

Há pais, entretanto que, inconformados com as desventuras dos filhos, optam por suspender de vez a prática da mesada. Curiosamente essa é daquelas soluções que, ao invés de resolver, acabam é complicando o problema. É mais ou menos como se os pais, angustiados com a febre da cria, quebrassem o termômetro para ver se a temperatura baixa.

É preciso compreender que atropelar o orçamento de vez em quando é parte da educação financeira dos filhotes. E que é mesmo desejável que isso aconteça na fase das mesadas.

No entanto, quando os escorregões acontecem com exagerada frequência, cabe aos pais investigar os motivos das falências. Pode ser que esteja acontecendo, por exemplo, da criança estar recebendo uma mesada miúda demais. Uma quantia tão pequena que não comporta nem as despesas que os pais exigem que a criança assuma com a grana.

Para checar essa hipótese, convém dar uma conferida com outros pais- de renda similar e que tenham filhos da mesma idade- para checar se o valor da mesada precisa ser reajustado. Uma outra causa comum para os deslizes frequentes tem a ver com o motivo oposto: a quantia dada está exagerada. Recebendo tanto dinheiro, a criança não se vê obrigada a criar um orçamento que controle as despesas que faz. Também nesse caso, como na hipótese anterior, uma pesquisa com outros pais ajudará a redefinir o cenário.

Por fim, uma outra razão para as bancarrotas infantis está relacionada com o intervalo com que o dinheiro é entregue aos filhotes. Apenas crianças com mais de onze anos estão aptas a receber mesadas. Antes dessa idade, por razões que falam dos estágios do desenvolvimento infantil, o que se recomenda são semanadas. Exigir que uma criança de oito anos, por exemplo, consiga planejar seus gastos durante um mês é estender a ela o tapete espinhoso da insolvência.

Foto: Sidinei Lopes