Recentemente a ideia de educação financeira transformou-se numa espécie de “conceito-ônibus”: todos parecem estar de acordo quanto a sua importância. O que pouco se discute são as faces desencontradas que o conceito assumiu.

Assim, muito embora pareça haver um entusiasmado consenso sobre as escolas assumirem o processo de educar crianças e jovens em relação ao dinheiro, é preciso cautela para que, no ímpeto, bugalhos não sejam tomados por alhos.

Preocupa o exagero das atribuições que se espera ver cumpridas pelas escolas no Brasil. Está claro que o ambiente escolar deve servir como palco para reflexão e transformação dos alunos. No entanto, em todo o mundo, a educação financeira é um assunto que cabe prioritariamente às famílias. Transferir essa responsabilidade para as escolas é ingenuidade ou oportunismo.

Nessa trama, o papel das escolas, embora importante, será sempre menor. A rigor, lhes cabe lapidar a percepção crítica dos alunos em relação ao consumo exacerbado e, por extensão, à louvação vulgar e estúpida da acumulação de dinheiro.

De outro lado, reconheça-se, o mundo mudou e a escola precisa atualizar-se. Não pode livrar-se de discutir a interdependência que sobressalta países, nem fechar os olhos à necessidade de readequação dos conteúdos pedagógicos.

Mas, acima disso tudo, a escola não tem o direito de continuar a ausentar-se de sua responsabilidade essencial: ensinar a leitura fluente e a escrita correta.

Sendo tantas as falhas do país nesse campo -dados da Unesco indicam que 75% da população é vitima de analfabetismo funcional- a principal ação de educação nas escolas deve ser, justamente, ensinar a ler e escrever apropriadamente.

É evidente que, se as crianças não tiverem acesso a esse mínimo, não encontrarão condições de inserção profissional que garantam renda para poupar, investir ou endividar-se com discernimento. Que não se perca de vista: educação financeira é importante. Mas não faz milagres.

Por fim, existe uma distorção na crença de que é possível ensinar crianças a manejar as finanças. Sejamos claros: dinheiro é um assunto de gente grande. Crianças não são pequenos adultos.
A educação financeira voltada a elas não pode prescindir da noção de longo prazo. É por isso que ensinar uma criança a fazer um orçamento doméstico, considerando rendas e despesas que não fazem sentido para o universo infantil, faz tanto sentido quanto ensiná-la, com diagramas na lousa, a manobrar um carro.